Laboratório de Gestão do Território

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Ensino a Distância

O debate sobre o ensino a distância é muito revelador sobre a mentalidade que vigora entre os detentores do conhecimento no Brasil. É interessante observar os argumentos morais e éticos daqueles que defendem a necessidade da presença e do contato quase corpóreo entre professores e alunos (as) nos trabalhos de campo. Não deixa de ser curioso encontrar os traços de nossa matriz ibérica, fundada na escolástica jesuítica em que os bons índios eram aqueles catequizados e aprisionados às reduções ou quem sabe na cordialidade do senhor com seus escravos (as), tão bem descrita por Gilberto Freyre em seu Casa Grande e Senzala e cantado por Chico Buarque em seu Fado Tropical, como aquele sentimento profundo que faz o coração chorar, enquanto as mãos estão ocupadas em trucidar. Apenas 6 % da população brasileira de mais de dez anos conseguiu completar a universidade e na, sua grande maioria, pagando por isso com seu trabalho. Das cinqüenta maiores universidades do mundo, em número de alunos, apenas duas são brasileiras. A Estácio de Sá com 186 mil e a Universidade do Norte do Paraná com 130 mil alunos. O que elas têm de comum? Simples, ambas são privadas e cobram pela educação, até certo ponto, presencial. Mesmo nos Estados Unidos, com toda a sua lógica capitalista, a maiores universidades são a do Estado de Nova Iorque (418 mil), do Estado da Califórnia (417 mil), de Ohio (400 mil) e da Florida (301 mil). Todas são públicas. Na vizinha Argentina temos a Universidade de Buenos Aires ( 316 mil), no México, temos a Universidade Autônoma (300 mil), do outro lado do Atlântico, a da África do Sul (250 mil). São todas públicas. Para que se tenha idéia da distância que nos separa, em 2004, todas as universidades públicas federais brasileiras somavam 574.584 alunos. Mas isso é pouco comparado com Universidades Públicas do sul da Ásia, que oferecem cursos a distância, como a Allama Iqbal, com1,9 milhão de alunos, no Paquistão, e a Indira Ghandi, com outros 1,8 milhão, na Índia. Essas duas instituições juntas têm uma população estudantil equivalente a cerca de um terço de todos os brasileiros vivos que completaram uma universidade. Certamente nossos iluminados professores dirão que o ensino é de baixa qualidade e massificado, uma verdadeira fábrica capitalista de diplomas. Porém, ai é que se enganam. Primeiro por que seguem o exemplo da Open University britânica, onde trabalha a conhecida geógrafa Doreen Massey, e são abertas a todos que queiram estudar e não apenas "pagar" disciplinas para obter um diploma. No Brasil, quando se pensa em Universidade vem logo à mente a figura do diploma, como uma moderna carta de alforria que garante o status de pretenso cidadão ao ex-escravo. Jamais poderemos acreditar que as pessoas querem simplesmente apreender e buscar seus próprios caminhos. Afinal em uma sociedade fundada na moral cristã, sempre se deve crer que necessário passar pelo purgatório, que é o verdadeiro sentido do vestibular, para depois ingressar no paraíso dos sábios que podem expressar livremente suas idiossincrasias. Segundo porque são instituições criadas após o processo de descolonização, que procuram recuperar o tempo perdido com a longa dominação britânica, vencendo o preconceito de buscar no exemplo do colonizador, o caminho para adquirir o que lhes conferiu o poder de dominar, isto é, o acesso ao conhecimento. No fundo, está aí o verdadeiro dilema moral e ético daqueles que se posicionam ‘a priori’ contra o ensino a distância. Só querem compartilhar o conhecimento no ambiente da sala de aula, onde podem exercer o seu domínio professoral. Só admitem como alunos aqueles que são obrigados a responder às chamadas e que são forçados a seguir currículos ultrapassados repletos de disciplinas obrigatórias, que caso não forem “pagas”, impossibilitariam o acesso ao almejado diploma. Em suma, como diria Foucault, com aqueles a quem se pode “vigiar e punir”. O mérito da educação a distância não reside apenas na ampliação do número de estudantes, na possibilidade de conciliar trabalho com o estudo, na capacidade de utilizar qualquer ambiente como lugar de aprendizado – seja uma sala de estar ou uma prisão, mas principalmente na liberdade de buscar construir o seu próprio caminho de aprendizado, sem ter que se submeter aos ditames e humores dos “proprietários” do conhecimento. A esses, nunca é demais lembrar Guimarães Rosa, que com muita propriedade afirmou que “mestre não é aquele que tudo ensina, mas aquele que de repente, aprende”.

Posted: 2010-05-16

Energia e Conflitos na América do Sul

A eleição de Fernando Lugo no Paraguai e sua proposta de elevar a parcela das receitas paraguaias na geração de Itaipu, aliada à aproximação da data do referendo autonomista do departamento de Santa Cruz, na Bolívia, que será seguido pelos dos departamentos de Tarija, Beni e Pando, apontam para um progressivo aumento da tensão na fronteira ocidental. Negociar novos preços de energia com o Paraguai significa assumir ou não uma postura mais proativa em relação aos nossos vizinhos, com os quais compartilhamos recursos energéticos. Isto que significa reconhecer a importância conferida pela dimensão territorial do Brasil na América do Sul e aprender uma lição em relação ao passado de descaso, desde os tempos da Tríplice Aliança. Acompanhar a evolução do processo político na Bolívia é também um aprendizado para o nosso desgastado federalismo. Como uma república unitária, a Bolívia não pode deixar de reconhecer que há mais diferenças entre o Altiplano e o Chaco que um estado centralizado possa abrigar, a não ser de forma autoritária. As experiências de autonomia regional da Espanha, apesar de fundarem-se na monarquia constitucional, trazem alternativas políticas interessantes para o amortecimento de conflitos territoriais e para a futura integração do continente sul-americano. (Claudio Egler)

Posted: 2009-10-25