Laboratório de Gestão do Território

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O que aprendi com Aziz Ab’Saber

Meu primeiro contato com Aziz Ab’Saber foi em um trabalho de campo no sertão paraibano no final da década de 1970. Havia sido contratado como professor colaborador pela Universidade Federal da Paraíba e foi uma de minhas primeiras expedições ao ‘miolão’ do semiárido, cruzando a diagonal da seca e penetrando no mundo dos pediplanos e inselbergs. Nessa trajetória contei com dois guias especiais: Aziz e Orlando Valverde.
Foi uma experiência inesquecível que vivi com José Grabois, companheiro de  muitas travessias geográficas no Nordeste. Lembro-me particularmente do momento que nos detivemos nas bordas da depressão de Patos  e fomos brindados pela explicação de como os processos geomorfológicos do passado, forjados por paleoclimas que não mais existem , marcaram profundamente a paisagem do semiárido, cujas condições naturais garantiram a permanência de suas feições até os dias naturais. Aziz ensinava a ler a dinâmica da paisagem nas formas do relevo e como passado e presente se mesclam na definição dos domínios morfoclimáticos, uma de suas importantes contribuições à geografia física.
Uma década depois, já no início dos anos 90, encontrei Aziz caminhando com Luís Inácio “Lula” da Silva em Porto Velho em suas Caravanas da Cidadania. Estava lá para ministrar um curso na UNIR e havia saído para um reconhecimento da cidade quando vi ao longe sua figura esguia e alta caminhando no meio de uma multidão de seguidores. Como sempre, sua reação foi extremamente afetiva e lembro-me de que almoçamos juntos em um restaurante que havia formado uma imensa mesa com todos os participantes da Caravana.
Durante o almoço conversamos sobre os rumos do Brasil e de sua geografia durante os anos trágicos do Governo Collor. Como sempre, Aziz vivia a realidade política nacional com toda a sua intensidade e  o encontro inesperado na Amazônia revelou me a grandeza de sua militância desprendida. Foi o momento em que estive mais próximo do futuro presidente e Aziz jamais foi ministro ou funcionário de governo. Sua autonomia cientifica  e moral sempre foram inegociáveis.
Alguns anos depois coordenei a elaboração do Telecurso 2000 - Geografia e necessitávamos de depoimentos de profissionais de notório saber para ilustrar os programas de televisão e difundir a geografia entre os alunos e instrutores do curso a distância. Aziz havia sofrido seu primeiro enfarte e estava - como dizia, no “estaleiro’ para recuperação. Convidado a contribuir com suas ideias, assumiu com afinco a tarefa e, talvez, tenha sido o geógrafo que mais tempo tenha ocupado nas telas de televisão pelo Brasil afora, enquanto o curso foi apresentado.
Aziz compreendeu integralmente a proposta do curso e contribuiu muito para tornar a geografia uma matéria viva e atual, que se destacou no conjunto das demais. Sua vocação para o ensino e sua crença de que o conhecimento científico emancipa homens e mulheres - transformando-os em sujeitos de suas vidas, sempre nortearam os seus passos e orientaram suas atitudes. Perdemos não apenas um grande cientista e um brilhante geógrafo, mas também um exemplo de comportamento ético.