Laboratório de Gestão do Território

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte

Brasil deve liderar integração econômica da América Latina

 

A expansão dos investimentos das empresas de países centrais para periféricos nos últimos 30 anos provocou uma polarização sem precedentes na economia global em que, de um lado, há hoje um conjunto de nações, como as do Leste Asiático, que se beneficiaram desse fluxo de capital e se tornaram industrializadas. No outro extremo restou outro grupo, formado por países desenvolvidos, como os Estados Unidos e os da União Europeia, além de emergentes, a exemplo do Brasil, que passam atualmente por um processo de desindustrialização.

Para sobreviver a essas mudanças na dinâmica da economia global, os países da América Latina precisam se integrar economicamente. E esse processo pode - e deve - ser liderado pelo Brasil.

 

A avaliação foi feita por Luiz Gonzaga Belluzzo, professor do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Faculdade de Campinas (Facamp), durante o The Fourth Latin American Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics (Laporde), realizado nos dias 7 a 11 de janeiro na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.

 

Organizado pelo Centro de Estudos de Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento (Cemacro) da Escola de Economia de São Paulo (EESP), da FGV, o objetivo do evento, realizado no âmbito do programa Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) da FAPESP, foi discutir sobre macroeconomia do desenvolvimento sob diferentes perspectivas.

 

O encontro contou com a participação dos professores Ha-Joon Chang e Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge (Inglaterra), Jan Kregel, da Universidade do Missouri (Estados Unidos), e Jan Priewe, da Universidade HTW Berlin (Alemanha). Além de Beluzzo, Luiz Carlos Bresser-Pereira, da FGV, e Nelson Barbosa, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, foram os conferencistas brasileiros.

 

De acordo com Belluzzo, a reconfiguração da economia global observada hoje - na qual alguns países, como a China, conseguiram obter saltos econômicos e passaram a concentrar a produção manufatureira mundial - não tem paralelo na História.

 

Isso porque, diferentemente do que ocorreu no século 19, quando países como por exemplo os Estados Unidos e a Alemanha emergiram como potências industriais de forma isolada e mudaram os rumos da economia mundial, o que se assiste atualmente na Ásia é à formação inédita de uma economia regional com alto grau de integração na produção manufatureira.

 

"A economia asiática se transformou em um polo manufatureiro de grande produtividade e integração em que alguns países, como a China, produzem peças e componentes de bens de consumo, e outros, como o Japão, são fornecedores de bens de capital - o que é espantoso e não tem precedentes históricos. Ainda há 2,6 bilhões de pessoas na região que estão disponíveis para serem incorporados [como mão de obra] a esse sistema produtivo", ressaltou Belluzzo, que é membro do Conselho Superior da FAPESP.

 

A China já exporta mais bens de consumo, como vestuário, para os Estados Unidos, Canadá e México do que os 27 países que formam a União Europeia. E, além de produzir e exportar produtos de menor valor agregado, o país asiático avança para áreas de tecnologia mais avançada, como maquinários elétricos e componentes e equipamentos de informática.

 

Por meio de mecanismos de absorção de tecnologias, a China também já atraiu boa parte dos sistemas de pesquisa e desenvolvimento que estavam ligados a grandes empresas europeias e norte-americanas.

"Se esse movimento de graduação tecnológica e integração regional continuar no atual ritmo na Ásia, provavelmente haverá uma tremenda polarização da produção manufatureira global pelos países da região, que é insuportável do ponto de vista do desenvolvimento de outras nações, inclusive das desenvolvidas", afirmou Belluzzo.

 

Para enfrentar o avanço da economia regional asiática, que começa a desenvolver instituições monetárias e financeiras próprias, segundo Belluzzo, os países da América Latina devem se integrar economicamente.

Isso porque, de acordo com ele, os países da região não têm escala de produção para sobreviver isoladamente como uma economia industrial moderna.

 

"O único país na América Latina que reúne os requisitos para enfrentar o avanço dos asiáticos com aumento de escala de produção é o Brasil. Mas o Brasil também não irá sobreviver sem avançar na integração com os outros países da América Latina. Em função disso e por ser a economia que tem mais condições na região, terá que liderar esse processo", disse Belluzzo.

 

Segundo o professor, com o Mercosul foi possível avançar na questão da integração comercial dos países da América do Sul. Mas, a fim de ampliar esse projeto para a América Latina, é preciso se pensar na criação de instituições financeiras, como um banco, para apoiar projetos de investimento nos países da região e auxiliá-los a caminhar na direção de um espaço econômico único, a exemplo do que se constrói na Ásia.

 

"A integração econômica da América Latina é inevitável para os países da região sobreviverem ao surgimento do espaço econômico que surgiu na Ásia a partir de um novo movimento competitivo", afirmou Belluzzo.

 

"Hoje, não há mais competitividade entre os países. São sistemas empresariais e produtivos que competem. Por isso, os países têm que adotar políticas de defesa de suas economias nacionais, que são muito diferentes daquelas que prevaleciam no passado", destacou Bellluzzo, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985 a 1987) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (1988 a 1990).

Origens do fenômeno

De acordo com Beluzzo, essa nova forma de funcionamento da economia global, com o deslocamento dos investimentos produtivos dos países centrais para os periféricos, foi iniciada na década de 1980 e se acentuou na seguinte. O movimento coincide com mudanças que ocorreram nas políticas econômicas dos países desenvolvidos.

 

A partir da década de 1990, em função de mudanças no regime de política econômica dos Estados Unidos, a conta de capital americana (que registra as transações de fundos, empréstimos e transferências do país) começou a se tornar superavitária (positiva).

 

Em contrapartida, sua conta corrente - que registra as entradas e saídas relacionadas ao comércio de bens e serviços e pagamentos de transferências, como o financiamento das empresas para realização de investimento externo - passou a ser sistematicamente deficitária (negativa).

 

Já a conta corrente chinesa, que até o início dos anos de 1990 oscilava entre pequenos déficits e pequenos superávits, a partir de dessa época começou a ficar claramente superavitária.

"Isso bate exatamente com o movimento de capitais americanos para o exterior. Nessa época, houve um grande deslocamento de empresas americanas para a China", explicou Belluzzo.

 

Desde então, segundo o economista, intensificou-se o investimento de empresas tanto norte-americanas como europeias na Ásia - sobretudo na China. Como consequência desse fenômeno, a economia dos países de origem desses investimentos e dos que concorrem com a China, como o Brasil, passam hoje por um processo de desindustrialização.

 

"Claramente, assim como a economia americana, a europeia e a brasileira estão se desindustrializando. O Brasil está perdendo elos importantes da cadeia industrial, como o setor de bens de capital, que está encolhendo", disse Belluzzo.

 

Entretanto, na opinião do economista, o país não está condenado a sofrer uma desindustrialização devastadora. "O Brasil tem uma possibilidade muito grande de desenvolver certos setores que estão ligados, por exemplo, à exploração do pré-sal, e exercer o protagonismo na integração da América Latina", destacou.

Apoio da FAPESP

Realizado desde 2008 pela FGV, o Laporde é baseado na experiência do Cambridge Advance Programme on Rethinking Development Economics (Caporde), promovido pela Universidade de Cambridge no período de 2002 a 2008.

 

O evento, apoiado pela primeira vez pela FAPESP, reuniu 40 estudantes de pós-graduação -- metade do Brasil e o restante de diversos países --, que tiveram suas despesas de viagem, transporte, acomodação e alimentação, pagas pela Fundação.

 

"O apoio da FAPESP fez com que recebêssemos um número maior de estudantes estrangeiros, de diferentes regiões do mundo, e de melhor qualidade do que das edições anteriores", disse Bresser-Pereira, coordenador do evento, à Agência FAPESP.

 

"Tivemos que recusar a participação de um número grande tanto de estudantes brasileiros, como de estrangeiros, em função do aumento do número de candidaturas. E isso foi graças à FAPESP", avaliou Bresser-Pereira.

(Elton Alisson, Agência FAPESP)